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O Último Recreio: um clássico contemporâneo

Por Antonio Guiral
Tradução de Janayna Bianchi

Há histórias com que estabelecemos uma relação muito especial. No meu caso, O último recreio, de Carlos Trillo e Horacio Altuna, é uma delas. Primeiro, como leitor. Foi um dos primeiros quadrinhos de Trillo e Altuna que li, e me impactou. Por como o roteirista conduzia o relato, detinha-se no clímax e, com seu acertado tempo narrativo, fundia à narração o leitor que havia em mim. Por como o desenhista diagramava as páginas, sempre atento à evolução da história; pela forma original de dispor os pedacinhos das cenas e, é claro, por como a arte era intensa, carnal e extraordinariamente expressiva. Depois, também estabeleci uma relação especial com a obra como divulgador de quadrinhos, pois tive a oportunidade de falar da obra em várias ocasiões. E também como editor, uma vez que fui agraciado com a sorte de ser responsável por uma das edições em formato de livro de O último recreio quando trabalhava na Planeta DeAgostini.


Capa da publicação da editora Planeta DeAgostini de 1998.

É possível, portanto, que eu não seja objetivo.


A você, que nunca leu O último recreio: não acho que vai lhe parecer que esta é uma história dos anos 1980 reeditada. Digo isso porque durante o boom dos quadrinhos para adultos na Espanha, muitas obras foram publicadas — mas convenhamos que algumas são datadas, pela estética ou pelo conteúdo, como acontece com muitos filmes dessa década. Isso não acontece com O último recreio — a única sensação é a de que é uma linda história narrada e ilustrada com excelência, que pode ser lida com os novos olhos do século XXI como o que é, e em que se transformou: um clássico contemporâneo.



Edição nº 41 da revista espanhola 1984

Em 1982, quando o primeiro capítulo de O último recreio saiu na revista 1984, da Toutain Editor (no número 41, datada de junho daquele mesmo ano), estávamos no ápice do que, pensávamos, ser a panaceia dos quadrinhos para adultos. Estávamos errados, como o tempo demonstrou — mas foi uma etapa pela qual tivemos que passar, e é parte da história de nossa indústria. Os quadrinhos para adultos na Espanha como algo original, palpável e moldado pelo contexto local havia começado em 1973 com as obras underground da coleção Los Tebeos del Rollo e com as páginas ácidas de El Papus. Continuou na revista Star (1974) e começou a se consolidar em 1977, com a aparição de títulos como Totem (o verdadeiro gatilho do movimento), El Jueves e Trocha/Troya. Despontou em 1978 com a revista 1984, à qual se seguiram El Víbora (1979), Creepy (1979), Comix Internacional (1980), Bésame Mucho (1980), Cimoc (1981), Cairo (1981), Rambla (1982) e Makoki (1982). Isso se considerarmos só as publicações periódicas, pois vale lembrar dos quadrinhos para adultos publicados em editoras como a Ediciones de la Torre e a Ikusager. Foi uma festa (e, como esperado, acabou em ressaca).


Carlos Trillo

Mas voltando a O último recreio: Trillo e Altuna já eram autores consagrados na argentina quando trabalharam nesta história. Carlos Trillo (Buenos Aires, 1943 – Londres, 2011), roteirista, editor, jornalista e especialista em quadrinhos, tinha começado sua relação profissional com o meio em 1964. Seus roteiros começaram a receber algum destaque com a série Un tal Daneri (revista Mengano, 1975, publicada no Brasil em 2021 como Um tal Daneri), com arte de Alberto Breccia. Entre 1975 e 1982, escreveu sagas de destaque como Nadie (com A. Breccia, 1976), Alvar Mayor (com Enrique Breccia, 1977), El peregrino de las estrellas (com E. Breccia, 1978) e Historias mudas (com Mandrafina, 1981). Trillo se apoiava nos cânones narrativos do classicismo e os transformava em histórias onde primavam o sempre obtuso teatrinho da vida e a alma que habita os seres humanos. Já Horacio Altuna (Córdoba, Argentina, 1941) passava por sua primeira experiência como quadrinista, principalmente nas revistas da Editorial Columba, como D’Artagnan e El Tony, onde ilustrou roteiros de autores tão célebres como Robin Wood (Big Norman, 1968) e Héctor G. Oesterheld (Kabul de Bengala, 1971). Colaborou com mercados estrangeiros na década de 1970, em editoras britânicas e estadunidenses. Pouco a pouco, foi aperfeiçoando a estética que o define como artista: um traço realista e dinâmico, expressivo e personalizado, como uma atenção especial ao jogo de luz e sombra e um domínio espetacular dos ângulos das cenas. Começou a ilustrar algumas histórias escritas por Trillo, mas foi em 1975 que ambos começaram uma longa carreira conjunta com a tira O loco Chávez, que seria publicada no jornal argentino Clarín entre 1975 e 1987. Juntos, assinaram algumas das séries de maior destaque dentre as histórias em quadrinhos argentinas do final da década de 1970 e início da década de 1980, como a releitura da grande depressão em Charlie Moon (1979), os sonhos escapistas de Las puertitas del Sr. López (1980) ou a singular existência de um peculiar policial de Nova York em Merdichesky (1981), publicadas em revistas do país como Superhum®, Péndulo e Hum®.


Horacio Altuna

Em 1982, o ano em que Horacio Altuna se instalou em Sitges (Barcelona) por motivos profissionais, políticos e existenciais, Trillo e Altuna já tinham experiência e conhecimento mútuos evidenciados pela qualidade de seus trabalhos. Foi quando produziram uma nova história, dessa vez para a revista espanhola de quadrinhos de fantasia e ficção científica 1984. Marcados, sim, pelos gêneros da publicação, trabalharam em treze relatos curtos e autônomos, mas perfeitamente entrelaçados entre si — tanto pela temática quanto pelos personagens. Lendo O último recreio, fica evidente que ambos possuíam com sobra a técnica necessária para desenvolver um bom quadrinho. Foram além, porém, e exploraram seu conhecimento e talento em uma fábula protagonizada por crianças que, embora não queiram ser adultos, levam nos genes as mesmas regras que regem os mais velhos.


O último recreio é uma história universal. As sensações provocadas pela leitura hoje são as mesmas que nós leitores sentidos há mais de trinta anos. Sensações intensas transmitidas por personagens críveis e situações que, embora conhecidas, não são menos dramáticas. A própria essência do ser humano.

Antoni Guiral é crítico, editor, pesquisador e roteirista espanhol, vencedor do Prêmio de Difusão dos Quadrinhos da Salón Internacional del Cómic de Barcelona de 2007.

 

Saiba mais sobre O Último Recreio, em pré-venda no Catarse até 13 de abril de 2022.



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